04/09/2003

Sons do Porto

NOTA: Este artigo foi editado a 6 de Setembro devido a um erro de transcrição que pode ter dado aso a más interpretações e maus juízos sobre as actuações, a redacção e terceiros que foram aqui mencionados. Fica desde já o pedido de desculpas pela gralha (que é natural quando se faz a redacção e transcrição imediatamente após as actuações).

Antes de mais hoje é um dia de festa para a Ponte Sonora: celebra-se hoje o nosso primeiro mês de actividade enquanto blog. Num mês falámos de rádio, falámos de filmes, cobrimos as participações portuguesas a Sudoeste, as Noites Ritual Rock mais a norte... Agora é a vez do Porto Sounds.

Para começar não se percebe muito bem o porquê deste concerto, a um dia de semana, num local que, para já, não serve para nada. O dito Edíficio Transparente tem uma camada de pó tal nos vidros que não seria má ideia renomearem para Edifício Opaco. A título pessoal não consigo prever grande sucesso para o edifício (a não ser que realmente avancem as construções descontroladas em redor do Parque da Cidade, tão polémicas no tempo do Eng. Nuno Cardoso) e não consigo compreender como é que a Câmara Municipal desinveste nas Ritual Rock e depois faz isto logo a seguir. Incompreensível. Passemos mas é ao que interessa!

Relógios atrasados

Já falei aqui nos hábitos portuenses (e não só) de começarem e chegarem sempre atrasados mas nunca disse que há horas sagradas na cidade, o jantar é uma delas. Podem haver centenas de actividades culturais pela cidade fora à hora de jantar que nenhuma irá contar com multidões, a não ser que seja um evento de gastronomia ou um evento desportivo de extrema importância para as equipas da cidade ou para Portugal. Neste Porto Sounds esta regra verificou-se. Pouco passava da hora exacta quando Francisco Menezes (aquele humorista de qualidade duvidosa que fazia o "Desterrado" na NTV e que mais recentemente fez um programa chamado "Portugal FM" para a RTP) subiu ao palco e iniciou o seu número para introduzir os Blind Zero. O recinto estava muito mal composto, não fazendo prever o que estaria para vir. Com um alinhamento essencialmente focado no "A Way To Bleed Your Lover", ficou visto que a banda não quis optar pelo caminho fácil e que está mais empenhada em dar a conhecer músicas novas do que tocar temas sobejamente conhecidos. Claro que estes também foram contemplados, curiosamente com um recinto bastante mais composto, e "Trashing The Beauty" e "Big Brother" (este último precedido das primeiras duas frases de "Another Brick In The Wall (Part II)", dos Pink Floyd) chegaram a gerar alguns pequenos focos de moche bastante moderado. As projecções vídeo continuam a servir de companhia a alguns dos novos temas, sendo particularmente agressiva a que acompanha "The Downset Is Tonight". Imagens de colisões propositadas de carros, impacto, suicídio, prazer: é disso que música e imagens falam. Já "About Now", o tema mais rock e psicadélico do novo disco, conta com uma rápida sequência de imagens de onde se destacam: Capitão América, Osama Bin Laden, George Bush, Adolf Hitler, Einstein, Becas (o personagem da Rua Sésamo) e muitas imagens caóticas. Este esquema tem-se revelado interessante mas, por outro lado, desvia a atenção daquilo que se passa em palco, dos músicos e da música propriamente dita. Outros dos temas novos, "You In Your Arms", deu a conhecer à grande maioria o novo instrumento inventado e concebido pelos próprios Blind Zero. Uma caixa com um projector dentro e que abanando gera uns ruídos semelhantes a chicotadas altamente amplificadas. Não sei que nome dão os Blind Zero ao seu invento mas eu cá chamo-lhe Reverb Box. Para acabar em beleza Vasco Espinheira pousa a sua guitarra de frente para os seus foldbacks (monitores, como são vulgarmente chamados) de forma a fazer feedback e começou a jogar com sons alterando apenas tonalidades e volumes no amplificador. Até sairam resultados interessantes; o guitarrista quase que conseguia fazer um uma melodia só dessa forma.

Miguel Guedes e companhia tiveram dois grandes desafios: o ser a banda de abertura e a aposta num alinhamento forte em temas novos. Se o primeiro só foi parcialmente ganho (começaram com muito pouca gente mas acabaram a meio-gás), o segundo foi uma aposta ganha. Mesmo sem saberem bem as letras o público aplaudia e, no final da actuação, ouvia-se mesmo gente a gritar por novo encore.

Um técnico para aqui, s.f.f.

Depois de mais um momento Francisco Menezes (desta vez com uma recriação de Michael Jackson e um rap) ligeiramente melhor que o anterior, foi a vez de Sérgio Godinho entrar em cena. Um tema com microfone sem fios e depois lá continuou com um normal devido a problemas técnicos (que mais tarde se viriam a repetir mas desta vez com os teclados de João Cardoso). Sérgio Godinho apostou essencialmente em temas que foram "hits" mas deixou muito caminho aberto para os temas de "Lupa" e de outros registos menos conhecidos. Desde que os arranjos passaram para as mãos de Nuno Rafael (Despe e Siga) todos os temas passaram a ter muito ska, rock-ska e alguma electrónica. Se por um lado pode soar bem, por outro torna-se repetitivo e retira aquele encanto de Sérgio Godinho ao natural. Cheguei mesmo a comentar que aquilo já não era Sérgio Godinho mas sim Nuno Rafael com letras e voz de Sérgio Godinho. Os momentos em que realmente reconheci o toque de Sérgio Godinho foram: "Etelvina" (numa versão mais calma, só com guitarras), "Charlatão" (tema de José Mário Branco e Sérgio Godinho) e "Lisboa que amanhece". Esquecendo os pequenos problemas que se registaram "aqui e ali", este foi o músico que contou com a audiência mais vasta e com a melhor formação. Não há um músico particular que se destaque, trabalham bem como um todo. Se houvesse um jogo maior entre a sonoridade original de Godinho e o ska, rock-ska, não teria dúvidas em classificar este como O concerto da noite, assim terá de partilhar o lugar com os Blind Zero.

Sérgio Godinho mal interpretado

Durante a actuação, Sérgio Godinho disse duas ou três vezes "vamos embora"... Acabou por ser levado à letra e quem saiu prejudicado foi Rui Veloso e os GNR.

O criador de personagens como a de "Chico fininho" e "Trolha da areosa" foi quem se seguiu ao possuidor do "Elixir da Eterna Juventude" e acabou por não sentir muito o abandono de muitos espectadores porque, ao mesmo tempo, outros (em menor número) chegavam.

Falar de Rui Veloso é sempre complicado... Dizer que o seu concerto foi baseado em "hits" é apenas meia-verdade porque o seu sucesso descontrolado até ao disco "Lado Lunar" fez com que um leque muito alargado dos seus temas ficassem no ouvido de toda a gente. Recentemente o meu colega de redacção escreveu aqui sobre televisão e a forma como esta transforma qualquer música num sucesso, o tema de abertura de Veloso foi precisamente transformado em hino por ter servido de genérico a uma telenovela; falo de "Todo o Tempo do Mundo". Um pouco por toda a parte havia gente a cantarolar a letra, pelo menos o refrão. No encore o destaque passou para "Postal Dos Correios", cujo registo discográfico conta com vozes de Jorge Palma, Tim (Xutos e Pontapés) e Vitorino no álbum "Rio Grande" do projecto homónimo. Um concerto igual a muitos outros que o canta-compositor tem feito mas que cai sempre bem.

Um concerto buy the book

Sobre a actuação dos EZ Special nas Ritual Rock, uma pessoa que estava comigo disse que era um espectáculo "by the book", eu alterei ligeiramente a frase para "concerto buy the book", visto que era totalmente promocional para levar as pessoas a comprar o disco. Sobre os GNR apetece dizer o mesmo, o que os distancia dos EZ Special é o facto dos GNR já terem muitos temas históricos e os EZ estarem agora a começar. "ósculos escuros", "e-ventos", "canadádá", "um mapa" e "sexta-feira (um seu criado)" foram temas precedidos de algumas palavras (não muito lúcidas) de Rui Reininho que, de uma forma ou de outra, deixavam subliminarmente a mensagem de que se tratavam de temas novos. Como se não bastasse, no encore volta a constar o primeiro single de "Do Lado Dos Cisnes" e daí acharmos que se estava a tentar vender algo mais que cerveja ali. Mas não se pense que só serviram temas do novo disco! O concerto abriu com um "Portugal na C.E.E." reajustado às novas realidades, passou por "Sangue Oculto", pelo multi-geracional "Dunas" (neste tema viram-se famílias inteiras a cantar também), entre muitos outros que fazem desta banda uma referência de gerações no pop-rock.

Muitas dúvidas

As primeira dúvidas que me surgiram (e às pessoas que estavam comigo): pretende-se iniciar uma nova tradição no Porto? Foi uma iniciativa avulsa da Câmara Municipal para promover o sítio que foi recentemente concessionado para ter bares e restaurantes? Será que Rui Rio se quis redimir por não ter aceite a integração do Porto no evento "100% música portuguesa" do movimento "Venham Mais Cinco"? E Miguel Guedes? Porque raio fez publicidade explícita à Sagres? E porque raio é que o vocalista dos Blind Zero fez um discurso a dizer que o Porto já estava a precisar de um evento assim quando ainda há menos de uma semana tivémos as Noites Ritual Rock nos Jardins do Palácio?

01/09/2003

Maré baixa

Finalmente um tempo para escrever sem ser para relatar concertos... Não que eu não goste de os ver e relatá-los por escrito mas gosto de poder divagar sobre outros assuntos. Precisamente devido a estes dois factores estive a pensar na forma como as marés de concertos estão mal distribuídas ou, mais grave, mal divulgadas.

No que toca a distribuição, existem dois pontos chave todos os anos: semanas académicas e festivais de verão. Curiosamente não diferem muito entre si (ok, o número de comas alcoólicos nas semanas académicas é maior, apesar do número de espectadores ser claramente superior num festival): ar livre, muitos watts de som e muita bebida. Estes dois tipos de eventos até nos fazem esquecer, por instantes, que há muito mais para além disso. Há concertos em pequenos bares, de bandas locais e não só, distribuídos durante o resto do ano e que, não tão raras vezes como seria desejável, estão às moscas. É lamentável que assim seja.

Ainda recentemente passei os olhos pelo site de uma empresa de agenciamento (e não só) e foi incrível ver que algumas bandas deram dezenas de concertos entre Março e a data de hoje e não me recordo de ter visto ou ouvido o mínimo de promoção que fosse da maior parte deles. Dos poucos que ouvi anúncios, a quase totalidade foi no programa Serviço Público da RDP Antena 3. Vamos ver se nos entendemos: o programa Serviço Público é UM programa com UMA hora diária e numa hora onde as pessoas estão mais preocupadas com o trânsito do que propriamente com o que estão a dizer no rádio. Mesmo que ouçam as datas de concertos, o mais provável é esquecerem (pelo menos é o que me acontece). Saliento que um dia tem 24 horas, que existem mais programas de rádio, que existem mais rádios e que existem outros meios de comunicação. É verdade que em terra de cegos quem tem olho é rei e a RDP Antena 3, com esse programa, fica claramente à frente da generalidade das concorrentes no que toca a promoção de concertos, o que não quer dizer que seja bom nem tão pouco o ideal. À semelhança do que acontece com o canal 1 da Rádio-Difusão, que tem informativos a todas as horas, nem que seja a repetir sempre o mesmo, não seria má ideia haver um espaço para "agenda do dia" a passar após cada sinal horário, pelo menos até às 21h. (das 22h em diante começava-se já a falar dos concertos do dia seguinte). Ouvintes e promotores ficariam agradecidos.

O Mundo da comunicação não se limita à rádio, embora a rádio seja aquele meio que não temos de pagar, está em praticamente todo o lado e é aquele meio indissociável da música. Analisemos então os outros meios de comunicação. Televisão, canais de circuito aberto: NADA. Não há nenhum espaço, nos 4 canais de circuito aberto, para promover os concertos de pequeno porte. No cabo as coisas são pouco melhores: a SIC Radical fala apenas nos concertos que as bandas convidadas vão dar nos próximos dois ou três dias. As bandas convidadas são, na melhor das hipóteses, 3 por dia e o mais provável é que os próximos concertos sejam por Lisboa ou redondezas. Por ridículo que possa parecer, acaba por ser a barra irritante do Sol Música o único meio que promove mais concertos desses pequenos. É verdade! Eu próprio fiquei surpreendidíssimo quando entre a mensagem "Mariana, era comigo que tu eras feliz. Volta para mim." e a mensagem "João, AMO-TE" vi uma série de datas de concertos que não vi anunciados em mais nenhum lado! Um autêntico achado no meio daquele lixo todo que passa permanentemente na barra. Peca por isso mesmo, por ser um achado no meio do lixo... A tendência natural quando se vê que 3 ou 4 mensagens não interessam é passar a ignorar o que passa na barra ou mesmo o canal propriamente dito. E em termos de televisão as coisas ficam por aqui. Jornais e revistas até acabam por dar a conhecer qualquer coisita algures com letras razoavelmente pequenas e, em alguns casos, limitado às simpatias (ou falta destas) dos responsáveis. Na Internet são inúmeros os sites a publicarem agendas mas nem toda a gente tem pachorra para procurar e nem toda a gente tem acesso à Internet. Vida.pt, Antena3.RDP.pt e os sites de produtoras de espectáculos (Mundo de Aventuras, Música no Coração e Xinfrim) são os que se destacam neste segmento.

Espero, com este artigo, estar a contribuir para que algo melhore nos próximos tempos em todos os meios.

31/08/2003

Listen carefully... There's more to come... Next year

Se tudo tivesse corrido bem, teria assistido a metade da actuação dos Dealema (DLM). Diz quem viu que foi uma actuação morna e que a banda merecia mais público a assistir. (In)felizmente neste segundo dia houve muito mais gente que se lembrou de ir até aos jardins do Palácio, o que dificultou o estacionamento. Como se não bastasse, da redacção da Ponte Sonora no Porto até aos jardins do Palácio é preciso fazer um percurso a contornar do rio Douro, que é também um percurso muito usado pelos casalinhos que aproveitam para deambular lentamente (de carro) pela cidade. Um percurso que se pode fazer em 10 minutos demorou praticamente 25 minutos, mais quase 10 para procurar estacionamento. E pronto... para quem contava chegar com 10 / 15 minutos de atraso, acabei por chegar com 40 minutos de atraso e perder assim a prestação dos Dealema.

Assim sendo a noite começou para mim com os Mesa. A roupagem da vocalista fez com que esta fosse muito "assediada" (não literalmente, claro) mal se apresentou em palco. A actuação não foi má, a banda recorre ligeiramente menos a samples comparativamente ao que assisti ano passado no palco secundário do Festival Sudoeste mas, ainda assim, a ideia de terem partes de instrumentos e vozes gravadas não agrada àqueles que vão ver ao vivo precisamente para ouvirem os temas com outra roupagem. Com os Mesa isso não acontece: o que se ouve em disco é o que se ouve em palco, com som ao vivo ou gravado mas tentam sempre recriar a sonoridade original. Como se trata de música para se "sentir a batida", há uma certa tendência para exagerar nos graves e no som dos teclados. Tirando isso, os temas seguem uma linha de influências de rock e ritmos mais dançáveis que acaba por se tornar repetitiva. Da minha parte fica a sensação que há muito mais a experimentar e a pôr em prática.

Para não ser incoerente com o dia anterior, mais uma vez a banda que merecia fechar a noite acabou por ficar no segundo plano. Os Terrakota já são um nome de referência em Lisboa e arredores há já, pelo menos, um ano e agora tiveram oportunidade para conquistar o Porto. Conquista que foi total e sem recurso a receitas de sucesso. No alinhamento da banda não constou o tema que a RDP Antena 3 mais rodou e que começa com a frase "Listen carefully"; esta omissão contrasta precisamente com a actuação dos EZ Special na noite anterior, que repetiu no encore o single "Daisy" numa versão prolongada. Grande parte dos temas dos Terrakota não eram do conhecimento do público mas isso não foi um problema, a sonoridade é fácil de agarrar mas há um excelente trabalho de ensaio que, certamente, não será tão fácil. O resultado foi espantoso, um sincronismo quase-perfeito entre todos os elementos, umas danças por parte da vocalista bastante bem enquadradas e naturais nas músicas. Mais visitas ao Porto aguardam-se.

Os Blasted Mechanism continuam a promover o "Namaste" mas, a bem da verdade, deve-se ressalvar que desde que entraram no estilo de dança (primeiro com as remisturas, agora com este álbum) a novidade já deixou de existir. O público salta e vibra (literalmente, visto que o piso também vibrava imenso) mas certamente que terá dificuldade em reconhecer algumas das músicas pois soa tudo muito parecido. Os graves mais uma vez foram puxados ao limite, não fossem essas as frequências que marcam a batida das músicas (que é o que interessa na música do género). Num dos temas o guitarrista tocou com um arco (parecido com os de violino), o que gerou uns sons curiosos mas quase abafados pelos graves, uma pena. Não há dúvidas que são bons execucionistas mas ser músico não é só isso... Os Blasted só teriam a ganhar com um regresso ao passado.

O mais antigo festival de Portugal vai iniciar os preparativos para 2004, a 13ª edição... Espera-se que não haja azares. A Ponte Sonora marcará presença pela certa.

30/08/2003

Tom Waits no feminino recebe telefonema de Istanbul

NOTA: Este artigo foi editado a 7 de Setembro por incluir informações erradas e devidamente desmentidas sobre o palco secundário das Noites Ritual Rock. Contrariamente ao que dissémos aqui (com base no que obtivémos noutro meio de comunicação social), o palco secundário deste evento nunca foi gerido pela Volume. Fica a anotação e o pedido de desculpas a todos os que foram afectados por este erro.

As Ritual Rock já tiveram noites melhores, quer em termos de clima, quer em termos de afluência, quer em termos de programa.
Se há coisa que os portuenses não são é pontuais mas já há uns anos para cá que a Xinfrim faz questão de cumprir quase à risca o anunciado. Pouco depois das 21h30m já os Fingertrips estavam no palco a animar o (pouco) pessoal. É uma pena porque a banda tem qualidade, boa disposição e uma sonoridade agradável. Do visual, dois elementos a salientar: a já habitual imagem do vocalista ao estilo "Blues Brothers" e o teclista que parecia um operador de perfuradoras (daqueles que andam por aí a escavacar a cidade toda). A banda subiu do extinto palco secundário para o principal com toda a justiça, para além da boa disposição são muito bons músicos.

No final da actuação fui até ao extinto palco secundário. O espaço foi transformado em lugar de projecções vídeo a cargo do canal ibérico Sol Música. Invariavelmente os vídeos eram produção caseira e passavam por todos os estilos de forma completamente aleatória, sem o mínimo de set-list elaborada (um pouco à imagem do próprio canal da Multicanal TPS).

Os Grace fizeram uma actuação com um alinhamento em tudo semelhante ao de Vilar de Mouros e ao do Sudoeste, a diferença é que aqui o palco era principal, eram cerca de 22h30m, o público estava de pé e era mesmo para os ver. Paulo Praça, que se apresentou de preto e com uma gravata branca, parecia um pouco mais bem-disposto pelo facto de ter à sua frente um público mais receptivo à sua sonoridade. Quem quiser mais detalhes sobre a prestação da banda veja o artigo do Sudoeste e acrescente que o som era indiscutivelmente melhor. "To all the stars" foi dedicado a uma estrela em particular - John Cage - falecida em 1992. (mais sobre John Cage em http://w3.rz-berlin.mpg.de/cmp/cage.html)

Injustamente, os Belle Chase Hotel não foram a banda a encerrar a primeira noite do ritual. A banda que serviu de mote ao título deste artigo actuou na segunda posição (tendo em conta que se vê de baixo para cima) com um espectáculo baseado no que prepararam para o "Coimbra - Capital Nacional da Cultura". Um tema introdutório instrumental com o som da guitarra portuguesa a salientar-se deixou logo a entender que não iria ser um concerto qualquer. JP Simões entrou em palco, atira o livro que trazia para o chão e reclama pela falta de cerveja. Pouco tempo depois regressou, já com cerveja garantida. E foi mesmo o vocalista que foi o centro das atenções: entre as músicas declamava umas frases às quais fazia questão de acrescentar comentários pessoais. Um misto de humor, literatura, música, cultura e sabedoria popular - uma mosca, uma pomba, uma mamã... Um espectáculo, acrescento eu. A confissão de estar "um bocado bêbado" acabou por se confundir no meio de tamanha encenação. Da menina que quer que esqueçamos tudo o que ela disse (Raquel Ralha, voz do tema "Esquece tudo o que te disse", entenda-se) fica a versão de "Telephone call from Istanbul", um original de Tom Waits.

Depois de três brilhantes actuações, os EZ Special acabaram por "cair mal" junto do público mais selectivo e "histórico" nestas andanças. Contrariamente a outros festivais, este é um festival adulto, para um público construtivo, não é propriamente o local da fãzinha histérica na primeira fila a alimentar o seu amor platónico por Ricardo Azevedo. Os EZ Special não souberam lidar com isso e chegaram ao ponto de pedir ao público uma falsa resposta "levantem os isqueiros, quero ver os isqueiros no ar. Quem não tem isqueiro põe os braços no ar, assim [e exemplificando o movimento]". Claro que o público, na sua maioria, ignorou o apelo e chegaram-se mesmo a ouvir comentários menos simpáticos dirigidos à banda. Nota-se que a banda tem feito o trabalho de casa, têm ensaiado e os resultados ao vivo fazem-se sentir no que toca ao rigor musical mas não foi o suficiente para despertar interesse. Daisy foi o único tema que conseguiu mexer com mais algumas pessoas, mesmo assim não chegou a "afectar" metade do recinto. Quanto à prestação em palco, não vou estar para aqui com divagações sobre se Ricardo Azevedo e amigos se mexem demasiado em palco ou não, eles (ou alguém por eles) lá sabem a postura a ter em palco, mas não posso deixar de referir um elemento estético que se revelou interessante em palco: 3 ecrãs distribuídos pelo palco com o logotipo e cores da banda. Apesar da má qualidade da imagem (que se notava mesmo à distância) dá um toque interessante.

O 12º Ritual é retomado dentro de algumas horas para mais quatro bandas, três das quais passaram pelo Festival Sudoeste este ano e a banda de abertura foi reportada aqui como uma das melhores bandas do portuguesas na Zambujeira do Mar - os Dealema -; vamos ver se conseguem manter a fasquia no nível elevado em que eles próprios colocaram.

(Nem imaginam os problemas que tive para conseguir colocar este artigo on-line. O serviço ADSL da ONI é do piorio... Por preços parecidos têm propostas bem mais estáveis e com melhores condições.Nunca confiem num ISP cujos servidores sejam autênticas "janelas" abertas para os vírus e ataques piratas. Nada como um "diabinho" para fazer a vida negra aos vírus e aos atacantes ou ter servidores das terras frias dos pinguins, onde vírus e atacantes nem se atrevem a entrar.)

29/08/2003

Portugueses só no palco secundário

O último dia de Sudoeste só contou com presenças portuguesas no palco secundário. Começou com os Spelling Nadja, cujos temas se enquadrariam perfeitamente na melhor banda sonora de um bom filme. A sonoridade quase que nos leva a viajar pela nossa imaginação, o que explica em muito o facto dos espectadores se encontrarem sentados ou deitados. Também fizemos a experiência e revelou-se de facto relaxante, conduzindo rapidamente a divagações sobre viagens e ao avivar da memória para pormenores de viagens feitas que, no momento, passaram quase despercebidos.

Zorg chegam com uma sonoridade que rompe totalmente com os primeiros. O punk-rock no formato mais cru é a sonoridade mais marcante desta banda. Muitos do que estiveram a assistir à primeira banda aproveitaram para visitar outros espaços do festival, os restantes estavam receptivos mas mantiveram-se sentados ou sem grandes movimentações, o que pareceu não agradar ao vocalista que criticou os presentes por reagirem histericamente quando uma banda estrangeira no palco principal diz "muihtoh ohbrighado" mas não aplaudem as prestações nacionais. Antes de mais convém frisar que quem vai assistir ao palco secundário são os fãs de música em geral e defensores da música feita em Portugal ou por portugueses, não são propriamente aqueles que apenas ouvem os grandes hits na rádio nem tão pouco os "apaixonados" por uma banda ou artista em particular. Certamente que poucos dos presentes reagiriam como o vocalista disse. Quanto à falta de aplausos, facilmente se percebe pelo cartaz que este não era um festival para fãs de punk, portanto é natural que todos tivessem uma certa dificuldade em perceber/sentir os temas e o punk não é tão facilmente expressável através do corpo como o hip-hop que invadiu o mesmo palco na tarde anterior. Apesar dos temas serem curtos, a sonoridade era sempre análoga, o que se tornou algo maçador.

Pelo palco ainda passaram os Mofo, os Mesa e o DJ Rui Vargas mas jantares e actuações no palco Optimus revelaram-se prioritárias. Sabe-se apenas que as performances foram bastante boas, com os Mesa a serem bastante mais bem recebidos do que no ano anterior (talvez por terem actuado às 23h e não às 18h).

O festival repete-se para o ano (se tudo correr bem) mas para já cumpre-se o Ritual portuense que, apesar de um cartaz menos forte, promete afirmar os novos nomes da música portuguesa que já passaram em edições anteriores pelos Jardins do Palácio de Cristal. Lá estaremos!

28/08/2003

Eu quero os prémios MTV Portugal !

A MTV norte-americana oferece esta noite os Video and Music Awards numa cerimónia que, pela sua história, se espera única.

Sou um fanático por prémios... sobretudo do showbizz (como diria o carrisímo Álvaro Costa)... já acompanhei dezenas informalmente e algumas oficialmente... mas com muita pena ainda não tive a oportunidade de assistir a nenhuma ao vivo.

Os prémios da MTV tem um efeito especial pois lembro-me com 7 ou 8 anos estar a ver na parabólica aquilo que me parecia ficção.

E uma das questões que me coloca hoje é:

- para quando os prémios da MTV Portugal que inaugurou em Agosto (salvo erro) ?!?!

Pelo trabalho desenvolvido pelas equipas de produção na Europa, sinceramente não sei o que esperar... mas gostava de assistir à 1ª !

Para os interessados, cliquem aqui para saberem mais pormenores sobre os VMA 2003 da MTV.

Tarde de hip-hop, noite de David Fonseca

Se há algo que nunca tinha visto num palco secundário foi o que vi na tarde de dia 9. O recinto estava cheio, toda a gente em pé e muito movimento de corpo. Também não era para menos, o hip-hop já há muito que não é apenas um som de minorias. Já há muito que o hip-hop saiu dos bairros e invadiu toda a sociedade, goste-se ou não do género.

Primeiro os Reacções Verbais, que eram uma novidade para a maioria dos presentes, terminaram a actuação relativamente cedo e muitos dos acampados perderam a sua actuação (como foi o nosso caso). Chegámos pouco depois das 17h40m e já o terreno estava a ser preparado para os Dealema. Os Dealema já não são uma novidade nestas andanças, já têm muitos anos de palcos pelo Porto e arredores, muitas participações com os Mind da Gap. Não foi nada difícil para os 4 MCs. Mesmo sem DJ em palco (uma groove box controlada por um MC tinha todas as batidas pré-definidas, não permitindo muitas divagações por parte dos MCs) conseguiram impressionar os presentes. Houve tempo para críticas: "Tentam pôr a culpa na sociedade" [...] "Nós somos responsáveis pela nossa vida. Vamos mudar as escolas, pintá-las, que parecem prisões do séculos XIX. Temos de continuar a manter o sonho vivo." Numa clara alusão à passividade com que uma boa parte das pessoas vive actualmente. Já perto do final da actuação Fuse, Guse, Xpião e Mundo pediram aos presentes para se manifestarem e a resposta a "façam barulho" foi, no mínimo, ensurdecedora. Foi o primeiro grande sinal de que o hip-hop está bem de saúde e apto para ocupar os palcos principais dos festivais.

O nome que se seguiu, Boss AC, teve a capacidade de manter a animação dos que já lá se encontravam e levar os que entretanto chegaram a entrar no espírito. O single "Baza, baza", com que encerrou a actuação, foi praticamente cantado na totalidade pelas pessoas que trocaram a praia pela tarde de hip-hop e a própria batida era praticamente inaudível fora da tenda. Uma tarde em grande para o hip-hop nacional.

A noite foi diminuta em termos de nomes nacionais, David Fonseca continuou a apresentar o seu "Sing me something new" com um espectáculo ligeiramente adaptado para o estilo festivaleiro. "Someone I cannot love" ouvia-se na zona mais distante do acampamento, não muito pelo som do palco mas sim pelo coro enormíssimo que já se tem tornado habitual nos concertos do ex-Silence 4.

27/08/2003

Sudoeste: o secundário que podia ser principal

Nesta edição do festival Sudoeste a música portuguesa passou essencialmente pelo palco Galp Energia, rotulado por muitos de palco secundário. De secundário este palco não teve nada, sobretudo na tarde dedicada ao hip-hop mas comecemos pelo início.

No primeiro dia (8 de Agosto) foi o rock e o pop/rock que dominou a tarde. Apesar da qualidade reconhecida das bandas, o público ainda não era muito e o que ia chegando preferia vaguear pelo recinto ou sentar-se na tenda do palco Galp Energia. Nem a potência e já alguma popularidade dos Renderfly conseguiu levantar as pessoas sentadas no recinto. A actuação dos Renderfly começou com um sample seguido de acompanhamento por parte de toda a banda e seguiu uma linha rock e pop/rock. O vocalista tentou manter algum contacto com o público mas acabou por confessar que tinha alguma dificuldade em falar português mas que está a aprender o idioma. A actuação encerrou com o já conhecido "Falling Star" mas, estranhamente, o vocalista referiu tratar-se de uma versão diferente da que passa na RDP Antena 3 quando, na prática, foi a versão eléctrica que já há muito passa na referida rádio.

Depois dos Renderfly subiram ao palco os Grace, que também estiveram em Vilar de Mouros, e que contam com uma formação conhecida de outras andanças: Paulo Praça (Turbo Junkie), Miguel (Zen) e Elísio Donas (ex-Ornatos Violeta e colaborador pontual na formação dos Blind Zero) são os rostos que saltam logo à vista. A sonoridade tem influências britânicas, do rock britânico, que foi cativando as pessoas que estavam a chegar ao recinto. Uma curiosidade desta actuação foi a versão de "Beautiful" da Christina Aguilera.

Os Loto encerraram o primeiro dia deste palco mas a nossa equipa aproveitou para se ir alimentar visto que o palco principal contava com Toranja e Blind Zero.

Os Toranja mantiveram um tipo de concerto muito semelhante ao que fizeram no palco secundário de Vilar de Mouros. Se em Vilar de Mouros a audiência preferiu estar sentada na relva, apesar de ter sido visível aqui e ali uma ou outra pessoa a cantarolar alguns dos temas, no Sudoeste estava um ambiente mais composto, em pé e que em alguns casos formavam um coro bem interessante. A actuação fica manchada da mesma forma que diversas outras desta banda, os Toranja ainda não conseguiram acertar com os técnicos e roadies, registando-se assim diversas falhas sonoras que poderiam ser evitadas com um pouco mais de rigor por parte do corpo técnico. É um problema que transcende a banda mas que prejudica a prestação e a imagem da banda. Ficou a curiosidade de ver a prestação em salas mais pequenas e, se possível, com uma equipa técnica com a lição mais bem estudada.

Os Blind Zero, por si só, já tinham no recinto uma massa de fãs para os ver. Numa altura em que a banda prepara uma tournée pelas capitais de distrito, neste caso foram pessoas de todos os distritos a deslocarem-se à pacata vila da Zambujeira do Mar com grande curiosidade para ver os Blind Zero em palco. Desta vez não houve projecções mas era visível que uma boa parte do público conhecia as músicas. A grande surpresa foi quando Miguel Guedes chamou ao palco Jorge Palma para acompanhar o sexteto portuense em "The Downset is Tonight", tal como acontece em "A Way to Bleed Your Lover". Se até aqui já as coisas tinham sido mais ou menos previstas pela revista do festival, o que ninguém previa era uma actuação de Jorge Palma acompanhado pelos Blind Zero; foi o que aconteceu quando Jorge Palma introduz o tema "Bairro do Amor" numa versão que Palma prometeu "usá-la com a banda" que o acompanha habitualmente. O bairro temporário da Zambujeira do Mar (que é um autêntico "bairro do amor", tal como os restantes festivais "rurais" de verão) ficou surpreso e agradado com a versão rock do tema. Devido à estrutura do festival, os Blind Zero deixaram uma parte significativa do seu alinhamento para a tournée que está para vir.

Trovante - estórias sem som

Desde já confesso que não sou grande apreciador da música feita pelos Trovante mas na última Feira do Livro em Lisboa adquiri o livro escrito por Manuel Faria intitulado "Trovante - Por Detrás do Palco".

Este livro foi escrito pelo antigo teclista do grupo lisboeta durante os 2 últimos anos, fazendo uma revisitação da carreira dos Trovante desde 1976 até 1999.

Como o próprio Manuel Faria afirma o livro "não pretende ser um retrato elogioso dos Trovante" e ao longo das mais 300 páginas raras vezes se sente isso e mostra como pode vibrar uma banda por detrás do palco.

Dos músicos que compõem (ou compunham) os Trovante a maior afinidade creio que, desde sempre, foi maior com Manuel Faria. O trabalho de Luís Represas nunca me suscitou grande emoção e com João Gil pouco mais se pode dizer. E para só falar dos mais mediáticos. João Salgueiro e os Gaiteiros de Lisboa ganham outro voto de confiança.

Mas depois de acabar de ler este livro surgiram-me algumas "ideias":

- porquê existe um fundo histórico da música portuguesa tão mal aproveitada e desprezada quando os primeiros trabalhos de uma banda como os Trovante (e é só uma entre muitas) não foi reeditado ?
- qual a "mistica" que envolvia esta banda ?
- que influência(s) tiveram na chamada música moderna portuguesa ?
- será que a sua obra é conhecida minimamente junto do público mais jovem ?

A estas perguntas junta-se uma vontade de conhecer melhor um trabalho que menosprezei durante anos mas acredito que cada vez mais seja de louvar.

Para os interessados:



Título do Livro - "Trovante: Por Detrás do Palco"
Autor - Manuel Faria
Editora - Dom Quixote

Podem comprar online na Media Books ou na FNAC.

25/08/2003

Músicas de anúncios para TV e Telenovelas

Aqui está um tópico que já poderia ter sido lançado 500 vezes...
O que me leva a reagir agora é a ligação mais próxima e eficaz da publicidade televisiva com a música portuguesa. Se durante algum tempo tivemos os exemplos do Moby e Lamb a atacarem os ouvidos de todos, agora temos EZ Special e Zedisanenonlight. E aqui entra a questão do gosto... A pop trolaró dos EZ Special desagrada a muitos mas verdade seja dita é bem feita. Transpira a U2 e James (talvez influencia de Saul Davies, guitarrista da banda inglesa e co-produtor do disco) por todos os lados... E então ? Já aconteceu muitas vezes ser confrontado por pessoas que acham que a banda é estrangeira. E há alguns anos atrás quando se ouvia uma banda portuguesa (salvo raras excepções) notava-se à distância a sua "costela" tuga.
O cantar em inglês... isso é uma questão que não vou colocar aqui... mas verdade seja dita as músicas portuguesas usadas para anúncios de TV são todas cantadas em inglês. E porque será ?!?! Aqui fica a pergunta... E os níveis de som de um anúncio televisivo em Portugal ??? Já repararam no aumento de, pelo menos, 50% do som ??? E sabem que isto é algo que já vem padronizado dos estúdios onde são gravados os anúncios ???

Enfim...

E o fenómeno telenovelas ?!
O mais recente caso são os Tribalistas que depois de tocarem insistentemente em todo o lado com "Já Sei Namorar", viram o seu disco vender caixotes cheios quando AS portuguesas (pois são as mulheres que mais compram discos no nosso país e que vem as telenovelas) ouviram a "Velha Infância" numa produção da Globo.

Enfim...

A repetição para a grande maioria das pessoas é o que as leva a reagir... toda a gente sabe disso... hoje em dia ninguém vai comprar um disco por ouvir um tema 1 vez... tem de ser repetido, até à exaustão... Quem ouve rádio sabe isso muito bem ! ;)

Enfim... mais uma curta reflexão de quem ficou em casa durante muito tempo ! :)