não esquecemos...



Antes de mais hoje é um dia de festa para a Ponte Sonora: celebra-se hoje o nosso primeiro mês de actividade enquanto blog. Num mês falámos de rádio, falámos de filmes, cobrimos as participações portuguesas a Sudoeste, as Noites Ritual Rock mais a norte... Agora é a vez do Porto Sounds.
Para começar não se percebe muito bem o porquê deste concerto, a um dia de semana, num local que, para já, não serve para nada. O dito Edíficio Transparente tem uma camada de pó tal nos vidros que não seria má ideia renomearem para Edifício Opaco. A título pessoal não consigo prever grande sucesso para o edifício (a não ser que realmente avancem as construções descontroladas em redor do Parque da Cidade, tão polémicas no tempo do Eng. Nuno Cardoso) e não consigo compreender como é que a Câmara Municipal desinveste nas Ritual Rock e depois faz isto logo a seguir. Incompreensível. Passemos mas é ao que interessa!
Relógios atrasados
Já falei aqui nos hábitos portuenses (e não só) de começarem e chegarem sempre atrasados mas nunca disse que há horas sagradas na cidade, o jantar é uma delas. Podem haver centenas de actividades culturais pela cidade fora à hora de jantar que nenhuma irá contar com multidões, a não ser que seja um evento de gastronomia ou um evento desportivo de extrema importância para as equipas da cidade ou para Portugal. Neste Porto Sounds esta regra verificou-se. Pouco passava da hora exacta quando Francisco Menezes (aquele humorista de qualidade duvidosa que fazia o "Desterrado" na NTV e que mais recentemente fez um programa chamado "Portugal FM" para a RTP) subiu ao palco e iniciou o seu número para introduzir os Blind Zero. O recinto estava muito mal composto, não fazendo prever o que estaria para vir. Com um alinhamento essencialmente focado no "A Way To Bleed Your Lover", ficou visto que a banda não quis optar pelo caminho fácil e que está mais empenhada em dar a conhecer músicas novas do que tocar temas sobejamente conhecidos. Claro que estes também foram contemplados, curiosamente com um recinto bastante mais composto, e "Trashing The Beauty" e "Big Brother" (este último precedido das primeiras duas frases de "Another Brick In The Wall (Part II)", dos Pink Floyd) chegaram a gerar alguns pequenos focos de moche bastante moderado. As projecções vídeo continuam a servir de companhia a alguns dos novos temas, sendo particularmente agressiva a que acompanha "The Downset Is Tonight". Imagens de colisões propositadas de carros, impacto, suicídio, prazer: é disso que música e imagens falam. Já "About Now", o tema mais rock e psicadélico do novo disco, conta com uma rápida sequência de imagens de onde se destacam: Capitão América, Osama Bin Laden, George Bush, Adolf Hitler, Einstein, Becas (o personagem da Rua Sésamo) e muitas imagens caóticas. Este esquema tem-se revelado interessante mas, por outro lado, desvia a atenção daquilo que se passa em palco, dos músicos e da música propriamente dita. Outros dos temas novos, "You In Your Arms", deu a conhecer à grande maioria o novo instrumento inventado e concebido pelos próprios Blind Zero. Uma caixa com um projector dentro e que abanando gera uns ruídos semelhantes a chicotadas altamente amplificadas. Não sei que nome dão os Blind Zero ao seu invento mas eu cá chamo-lhe Reverb Box. Para acabar em beleza Vasco Espinheira pousa a sua guitarra de frente para os seus foldbacks (monitores, como são vulgarmente chamados) de forma a fazer feedback e começou a jogar com sons alterando apenas tonalidades e volumes no amplificador. Até sairam resultados interessantes; o guitarrista quase que conseguia fazer um uma melodia só dessa forma.
Miguel Guedes e companhia tiveram dois grandes desafios: o ser a banda de abertura e a aposta num alinhamento forte em temas novos. Se o primeiro só foi parcialmente ganho (começaram com muito pouca gente mas acabaram a meio-gás), o segundo foi uma aposta ganha. Mesmo sem saberem bem as letras o público aplaudia e, no final da actuação, ouvia-se mesmo gente a gritar por novo encore.
Um técnico para aqui, s.f.f.
Depois de mais um momento Francisco Menezes (desta vez com uma recriação de Michael Jackson e um rap) ligeiramente melhor que o anterior, foi a vez de Sérgio Godinho entrar em cena. Um tema com microfone sem fios e depois lá continuou com um normal devido a problemas técnicos (que mais tarde se viriam a repetir mas desta vez com os teclados de João Cardoso). Sérgio Godinho apostou essencialmente em temas que foram "hits" mas deixou muito caminho aberto para os temas de "Lupa" e de outros registos menos conhecidos. Desde que os arranjos passaram para as mãos de Nuno Rafael (Despe e Siga) todos os temas passaram a ter muito ska, rock-ska e alguma electrónica. Se por um lado pode soar bem, por outro torna-se repetitivo e retira aquele encanto de Sérgio Godinho ao natural. Cheguei mesmo a comentar que aquilo já não era Sérgio Godinho mas sim Nuno Rafael com letras e voz de Sérgio Godinho. Os momentos em que realmente reconheci o toque de Sérgio Godinho foram: "Etelvina" (numa versão mais calma, só com guitarras), "Charlatão" (tema de José Mário Branco e Sérgio Godinho) e "Lisboa que amanhece". Esquecendo os pequenos problemas que se registaram "aqui e ali", este foi o músico que contou com a audiência mais vasta e com a melhor formação. Não há um músico particular que se destaque, trabalham bem como um todo. Se houvesse um jogo maior entre a sonoridade original de Godinho e o ska, rock-ska, não teria dúvidas em classificar este como O concerto da noite, assim terá de partilhar o lugar com os Blind Zero.
Sérgio Godinho mal interpretado
Durante a actuação, Sérgio Godinho disse duas ou três vezes "vamos embora"... Acabou por ser levado à letra e quem saiu prejudicado foi Rui Veloso e os GNR.
O criador de personagens como a de "Chico fininho" e "Trolha da areosa" foi quem se seguiu ao possuidor do "Elixir da Eterna Juventude" e acabou por não sentir muito o abandono de muitos espectadores porque, ao mesmo tempo, outros (em menor número) chegavam.
Falar de Rui Veloso é sempre complicado... Dizer que o seu concerto foi baseado em "hits" é apenas meia-verdade porque o seu sucesso descontrolado até ao disco "Lado Lunar" fez com que um leque muito alargado dos seus temas ficassem no ouvido de toda a gente. Recentemente o meu colega de redacção escreveu aqui sobre televisão e a forma como esta transforma qualquer música num sucesso, o tema de abertura de Veloso foi precisamente transformado em hino por ter servido de genérico a uma telenovela; falo de "Todo o Tempo do Mundo". Um pouco por toda a parte havia gente a cantarolar a letra, pelo menos o refrão. No encore o destaque passou para "Postal Dos Correios", cujo registo discográfico conta com vozes de Jorge Palma, Tim (Xutos e Pontapés) e Vitorino no álbum "Rio Grande" do projecto homónimo. Um concerto igual a muitos outros que o canta-compositor tem feito mas que cai sempre bem.
Um concerto buy the book
Sobre a actuação dos EZ Special nas Ritual Rock, uma pessoa que estava comigo disse que era um espectáculo "by the book", eu alterei ligeiramente a frase para "concerto buy the book", visto que era totalmente promocional para levar as pessoas a comprar o disco. Sobre os GNR apetece dizer o mesmo, o que os distancia dos EZ Special é o facto dos GNR já terem muitos temas históricos e os EZ estarem agora a começar. "ósculos escuros", "e-ventos", "canadádá", "um mapa" e "sexta-feira (um seu criado)" foram temas precedidos de algumas palavras (não muito lúcidas) de Rui Reininho que, de uma forma ou de outra, deixavam subliminarmente a mensagem de que se tratavam de temas novos. Como se não bastasse, no encore volta a constar o primeiro single de "Do Lado Dos Cisnes" e daí acharmos que se estava a tentar vender algo mais que cerveja ali. Mas não se pense que só serviram temas do novo disco! O concerto abriu com um "Portugal na C.E.E." reajustado às novas realidades, passou por "Sangue Oculto", pelo multi-geracional "Dunas" (neste tema viram-se famílias inteiras a cantar também), entre muitos outros que fazem desta banda uma referência de gerações no pop-rock.
Muitas dúvidas
As primeira dúvidas que me surgiram (e às pessoas que estavam comigo): pretende-se iniciar uma nova tradição no Porto? Foi uma iniciativa avulsa da Câmara Municipal para promover o sítio que foi recentemente concessionado para ter bares e restaurantes? Será que Rui Rio se quis redimir por não ter aceite a integração do Porto no evento "100% música portuguesa" do movimento "Venham Mais Cinco"? E Miguel Guedes? Porque raio fez publicidade explícita à Sagres? E porque raio é que o vocalista dos Blind Zero fez um discurso a dizer que o Porto já estava a precisar de um evento assim quando ainda há menos de uma semana tivémos as Noites Ritual Rock nos Jardins do Palácio?
No que toca a distribuição, existem dois pontos chave todos os anos: semanas académicas e festivais de verão. Curiosamente não diferem muito entre si (ok, o número de comas alcoólicos nas semanas académicas é maior, apesar do número de espectadores ser claramente superior num festival): ar livre, muitos watts de som e muita bebida. Estes dois tipos de eventos até nos fazem esquecer, por instantes, que há muito mais para além disso. Há concertos em pequenos bares, de bandas locais e não só, distribuídos durante o resto do ano e que, não tão raras vezes como seria desejável, estão às moscas. É lamentável que assim seja.
Ainda recentemente passei os olhos pelo site de uma empresa de agenciamento (e não só) e foi incrível ver que algumas bandas deram dezenas de concertos entre Março e a data de hoje e não me recordo de ter visto ou ouvido o mínimo de promoção que fosse da maior parte deles. Dos poucos que ouvi anúncios, a quase totalidade foi no programa Serviço Público da RDP Antena 3. Vamos ver se nos entendemos: o programa Serviço Público é UM programa com UMA hora diária e numa hora onde as pessoas estão mais preocupadas com o trânsito do que propriamente com o que estão a dizer no rádio. Mesmo que ouçam as datas de concertos, o mais provável é esquecerem (pelo menos é o que me acontece). Saliento que um dia tem 24 horas, que existem mais programas de rádio, que existem mais rádios e que existem outros meios de comunicação. É verdade que em terra de cegos quem tem olho é rei e a RDP Antena 3, com esse programa, fica claramente à frente da generalidade das concorrentes no que toca a promoção de concertos, o que não quer dizer que seja bom nem tão pouco o ideal. À semelhança do que acontece com o canal 1 da Rádio-Difusão, que tem informativos a todas as horas, nem que seja a repetir sempre o mesmo, não seria má ideia haver um espaço para "agenda do dia" a passar após cada sinal horário, pelo menos até às 21h. (das 22h em diante começava-se já a falar dos concertos do dia seguinte). Ouvintes e promotores ficariam agradecidos.
O Mundo da comunicação não se limita à rádio, embora a rádio seja aquele meio que não temos de pagar, está em praticamente todo o lado e é aquele meio indissociável da música. Analisemos então os outros meios de comunicação. Televisão, canais de circuito aberto: NADA. Não há nenhum espaço, nos 4 canais de circuito aberto, para promover os concertos de pequeno porte. No cabo as coisas são pouco melhores: a SIC Radical fala apenas nos concertos que as bandas convidadas vão dar nos próximos dois ou três dias. As bandas convidadas são, na melhor das hipóteses, 3 por dia e o mais provável é que os próximos concertos sejam por Lisboa ou redondezas. Por ridículo que possa parecer, acaba por ser a barra irritante do Sol Música o único meio que promove mais concertos desses pequenos. É verdade! Eu próprio fiquei surpreendidíssimo quando entre a mensagem "Mariana, era comigo que tu eras feliz. Volta para mim." e a mensagem "João, AMO-TE" vi uma série de datas de concertos que não vi anunciados em mais nenhum lado! Um autêntico achado no meio daquele lixo todo que passa permanentemente na barra. Peca por isso mesmo, por ser um achado no meio do lixo... A tendência natural quando se vê que 3 ou 4 mensagens não interessam é passar a ignorar o que passa na barra ou mesmo o canal propriamente dito. E em termos de televisão as coisas ficam por aqui. Jornais e revistas até acabam por dar a conhecer qualquer coisita algures com letras razoavelmente pequenas e, em alguns casos, limitado às simpatias (ou falta destas) dos responsáveis. Na Internet são inúmeros os sites a publicarem agendas mas nem toda a gente tem pachorra para procurar e nem toda a gente tem acesso à Internet. Vida.pt, Antena3.RDP.pt e os sites de produtoras de espectáculos (Mundo de Aventuras, Música no Coração e Xinfrim) são os que se destacam neste segmento.
Espero, com este artigo, estar a contribuir para que algo melhore nos próximos tempos em todos os meios.